O Frankenstein de Casagrande e Ricardo Ferraço

O Frankenstein de Casagrande e Ricardo Ferraço

Nessa história não será estranho Ricardo ser trocado pelo Helder ou Ricardo faz teatro como ator global?

A política capixaba pode estar assistindo à construção de uma criatura híbrida — montada com pedaços de conveniência, costurada com fios de pragmatismo e energizada pelo medo de perder poder. O nome dessa criatura? O arranjo entre Renato Casagrande e Ricardo Ferraço.

De um lado, Casagrande flerta abertamente com o Partido dos Trabalhadores para viabilizar sua eleição ao Senado. De outro, Ferraço se posiciona contra a coligação nacional do Movimento Democrático Brasileiro com o PT.

No meio dessa engrenagem surge Helder Salomão, candidato petista ao governo.

A pergunta que ecoa nos bastidores é simples e explosiva:
Ricardo é o herdeiro incontestável ou apenas um ator provisório?

Duas hipóteses — e nenhuma é confortável

Existem apenas dois cenários possíveis.

01  Teatro calculado para agradar a direita

O Espírito Santo tem um eleitorado majoritariamente conservador, com forte inclinação bolsonarista nos últimos ciclos. Ferraço sabe disso. Ao se posicionar contra a coligação nacional com o PT, ele envia um recado claro à direita: “não sou petista”.

Mas enquanto ele acena para a direita, Casagrande negocia com o PT no Senado.

Se isso for combinado, estamos diante de uma engenharia eleitoral sofisticada:

Casagrande garante apoio da esquerda para sua vaga em Brasília.

Ferraço mantém a narrativa de independência para disputar votos conservadores.

O grupo preserva poder independentemente do resultado nacional.

Seria o clássico jogo de duas lâminas que parecem opostas, mas cortam juntas.

Nesse cenário, Ricardo não é rebelde — é intérprete. Um ator disciplinado que cumpre o papel necessário para não perder o eleitorado conservador enquanto o chefe costura acordos com a esquerda.

Mas teatro político tem risco: quando o público percebe o roteiro, a plateia reage.

02 A desculpa perfeita para a troca

Há, porém, uma hipótese ainda mais perturbadora.
E se a divergência pública for a construção gradual de uma justificativa?

Se o cenário nacional apertar, se o PT nacional endurecer exigências, se o tabuleiro mudar — não seria estranho ver Ricardo “inviabilizado” politicamente e o grupo migrar para uma composição alternativa.
E quem estaria ali, pronto, legitimado, já em diálogo com Casagrande? Helder.

A narrativa estaria pronta:

“Não houve acordo com o MDB.”
“Precisamos garantir governabilidade.”
“O momento exige responsabilidade.”

Em política, divergência hoje pode ser ponte amanhã.

Frankenstein eleitoral

O que se vê é uma criatura política montada com peças ideológicas incompatíveis:
Um governador que busca apoio petista.

Um sucessor que rejeita coligação com o PT.

Um candidato petista que oficialmente é adversário, mas pode ser funcional.

Isso não é simples pragmatismo.
É sobrevivência de grupo.

E quando o objetivo central é a permanência no poder, coerência vira detalhe secundário.

O fator medo

Há um elemento silencioso nessa equação: o medo de um estado que já demonstrou inclinação forte à direita.

Se o ambiente é bolsonarista, a ruptura explícita com esse eleitorado seria suicídio político. Daí a necessidade do “equilíbrio performático”.

Mas equilíbrio performático não é projeto de estado.

É gestão de risco eleitoral.

Conclusão: quem é o verdadeiro herdeiro?

A dúvida que fica não é apenas sobre alianças. É sobre lealdade estratégica.

Ricardo é o sucessor natural ou o escudo temporário?

Helder é adversário real ou carta na manga?

Se for teatro, é um teatro perigoso.
Se for transição disfarçada, é ainda mais ousado.

Porque Frankenstein sempre escapa ao controle do criador.

E, quando isso acontece, não é o laboratório que explode são os envolvidos nessa trama.