Polícia Federal diz que juiz preso tinha ‘rede de influências espúrias’ no Governo do Espírito Santo

Polícia Federal diz que juiz preso tinha ‘rede de influências espúrias’ no Governo do Espírito Santo

A Polícia Federal identificou indícios da atuação de uma “estrutura de influência indevida” envolvendo o juiz federal Macário Júdice Neto no do Governo do Espírito Santo, comandado por Renato Casagrande (PSB).

A suposta rede ilegal faz parte de relatório elaborado a partir da análise de conversas entre o magistrado, preso desde dezembro, e o empresário Adilson Ferreira, investigado pela Polícia Civil capixaba sob suspeita de exercer o papel de operador financeiro da facção Primeiro Comando de Vitória.

Os diálogos, segundo a PG, foram extraídos do celular de Adilson, apreendido em maio de 2025 durante a Operação Baest. Conforme a PF, o material aponta para uma possível atuação direta do juiz em favor de uma empresa interessada em uma licitação da Secretaria de Educação.

O compartilhamento das informações com a Polícia Federal ocorreu com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, além de decisão da Justiça estadual.

Para os investigadores, mensagens e áudios revelam que o magistrado não apenas teria acompanhado o andamento de um recurso administrativo dentro da Procuradoria-Geral do Estado, como também orientado estratégias jurídicas e mencionado interlocução com servidores envolvidos no processo.

A reportagem foi divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo na manhã desta sexta-feira (20) e traz uma resposta considerada, no mínimo, curiosa por parte do governo estadual: procurado, o Executivo informou, por meio da assessoria, que os esclarecimentos caberiam à Secretaria de Educação e à Procuradoria-Geral do Estado, justamente os órgãos citados nas conversas.

A reportagem da Folha de São Paulo traz que a Secretaria de Educação teria afirmado que os processos licitatórios seguem critérios rigorosos de controle interno e que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Já a Procuradoria-Geral do Estado teria informado que os recursos administrativos da empresa mencionada teriam sido rejeitados.

Ainda segundo o relatório da PF, a defesa de Adilson Ferreira, representada pelo advogado Douglas Luz, teria sustentado que os diálogos não apresentam qualquer irregularidade. O jornal acrescenta que o advogado do juiz, Fernando Fernandes, não teria respondido às tentativas de contato.

A relação entre o governador Renato Casagrande e o magistrado também passou a ser alvo da Polícia Federal. A corporação solicitou a abertura de investigação após identificar mensagens que poderiam indicar uma eventual troca de favores.

O relatório, no entanto, não estabelece ligação direta entre essa relação e a suposta rede de influência atribuída ao juiz. Ainda assim, a PF pediu a instauração de dois inquéritos distintos, embora ambos os temas tenham sido reunidos no mesmo documento encaminhado ao Supremo.

Entre os elementos destacados, a Polícia Federal aponta que uma solicitação feita por Casagrande ao magistrado teria sido decisiva para viabilizar juridicamente a candidatura de um aliado político em 2024. O governador não comentou esse ponto específico, mas já declarou anteriormente que o diálogo com o juiz teve caráter institucional e republicano.

Macário Júdice Neto, juíz federal, está preso sob acusação de repassar informações sigilosas de investigação ao então presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União Brasil).

As conversas mantidas entre o juiz e o empresário, entre 2023 e 2024, também indicam, segundo a PF, atuação em favor da empresa Unique Serviços e Transportes em um processo licitatório da Secretaria de Educação voltado à compra de até R$ 10,5 milhões em aparelhos de ar-condicionado.

Em um dos áudios analisados, o magistrado afirma aguardar contato do “PGR”, o que, para a Polícia Federal, seria uma referência ao então procurador-geral do Estado, Jasson Amaral.

Os investigadores também apontam que a eventual influência do juiz na Procuradoria poderia ocorrer por meio de seu irmão, o procurador Rodrigo Júdice. O contato dele teria sido compartilhado com o empresário, havendo registros de menções ao seu nome nas conversas.

O jornal Folha de São Paulo traz na reportagem que, em nota, Rodrigo Júdice teria declarado surpresa e indignação com a citação, negando qualquer envolvimento no caso ou tratativas sobre o tema e acrescentando que não há registros de conversas suas nos autos, nem chamadas telefônicas recebidas do empresário.

Em outro trecho dos diálogos, o magistrado questiona a possibilidade de obter um “preço vantajoso” para um procurador identificado como “Alexandre”, que teria interesse na compra de aparelhos de ar-condicionado, afirmando que o servidor estaria colaborando com a situação.

A Polícia Federal também identificou mensagens trocadas entre Adilson Ferreira e Flávia Júdice, esposa do juiz, que, de acordo com o relatório, indicariam uma relação de proximidade entre ambos.

Fonte: Folha de São Paulo

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